top of page
Buscar

A tirania do “viva o presente”: a armadilha de tentar ser leve o tempo todo

  • Foto do escritor: Fernanda Abelin
    Fernanda Abelin
  • há 6 dias
  • 3 min de leitura

Não há nada mais cansativo do que a obrigação de estar sempre leve.


Se você abrir qualquer rede social agora e rolar o feed por cinco minutos, a chance de ser inundado por um mantra coletivo é quase absoluta. São imagens bonitas acompanhadas de frases como “Viva o agora”, “O amanhã não existe” ou “Deixe fluir”. Esse discurso transformou o imediatismo e o desapego em pilares da saúde mental. Vender a ideia de que o futuro se resolve sozinho virou quase um dogma, uma receita pronta de felicidade que ninguém ousa questionar.


No consultório, vejo com frequência o preço alto que as pessoas pagam por tentar se encaixar, à força, nesse modelo idealizado de leveza absoluta. São histórias de quem, em nome de um "viver o agora" mal compreendido, ignora vários sinais importantes como desgaste nas relações, negligencia a saúde, gasta o que não tem e sabota a própria estabilidade. O "viva o presente", quando levado ao extremo, vira um luxo perigoso. Uma conta alta, cheia de juros emocionais (e físicos!) que o nosso "eu" do futuro inevitavelmente terá que pagar sozinho, sem plateia e sem filtros.


Crescemos ouvindo que a pressa é inimiga da perfeição, mas esqueceram de nos avisar que o imediatismo performático também é inimigo da estabilidade. Essa romantização do "só se vive uma vez" funciona muito bem na teoria das legendas emocionadas, mas, no mundo real da vida adulta, ela não é sabedoria; é uma armadilha.


A verdade por trás desse comercial de bem-estar é que olhar para a frente e antecipar o futuro não é um erro de fabricação da nossa mente. Não é um defeito que a terapia precisa consertar. É, na verdade, uma das nossas ferramentas mais sofisticadas de adaptação. Olhar para o amanhã, calcular riscos e estruturar rotinas não nos torna pessoas amargas, rígidas ou controladoras. Torna-nos adultos inteiros e responsáveis pela própria história.


A pressa em consumir a vida pode nos impedir de construir as bases dela. Queremos a colheita antes mesmo de preparar a terra, como se o amanhã fosse uma abstração que nunca vai bater à nossa porta. Mas ele bate. E costuma cobrar caro de quem passou o dia fingindo que o tempo não deixa marcas.


Mas atenção! O território do amanhã também tem os seus abismos. Existe uma linha muito tênue que separa o cuidado da obsessão. É o momento em que olhar para a frente deixa de ser uma preparação e passa a ser uma paralisia. É quando a mente começa a cobrar juros por problemas que nem aconteceram, e passamos os dias tentando controlar o incontrolável. Se o imediatismo nos deixa desamparados, o excesso de controle nos deixa esgotados antes mesmo de a semana começar.


A maturidade será justamente a capacidade de sustentar essa contradição: conseguir olhar para a frente sem perder o chão sob os pés. É entender que planejar serve para nos dar base, não amarras.


Ou seja: só consegue relaxar e desfrutar do presente quem passou algum tempo organizando o amanhã.


Não dá para meditar em paz quando a estrutura ao redor está desmoronando. Saber que existe uma reserva de emergência guardada, que o relacionamento tem bases sólidas ou que há um "Plano B" estruturado para o caso de o motor da vida falhar, não retira a nossa espontaneidade. Concede. A previsibilidade e a prudência não matam a poesia da vida; elas são as verdadeiras arquitetas do descanso.


Ter os pés no chão, uma planilha de custos organizada ou uma agenda aberta na mesa não é falta de fé no fluxo do universo. É um ato profundo de autocuidado e de responsabilidade conosco e com aqueles que caminham ao nosso lado.


A vida adulta não se sustenta apenas com intuição e rompantes de coragem; ela se apoia na constância do cotidiano. Às vezes, nos vendem o planejamento como sinônimo de rigidez, como se ter metas nos transformasse em robôs sem alma. Mas a maturidade nos ensina o oposto: o planejamento é um dos maiores atos de liberdade que podemos exercer. É ele que nos dá o poder de escolher para onde ir, em vez de simplesmente sermos arrastados pelas urgências do mundo.


Prever cenários não é pessimismo. É um escudo que garante que, quando o futuro chegar (e sempre chega), não nos encontre desarmados.


Talvez o que nos falte hoje seja nos dar a autorização interna para aceitar que a nossa necessidade de segurança é legítima, desde que ela não nos roube o ar do dia de hoje. Sentir medo do amanhã faz parte, e se preparar para ele é uma forma de carinho com quem seremos logo ali na frente. Menos good vibes de tela, mais realidade funcional! No fim das contas, a forma mais honesta de cuidar do presente é garantir que o amanhã seja um lugar minimamente seguro para onde a gente possa caminhar em paz.


Fernanda Abelin

 
 
 

Comentários


bottom of page