Eu fui sozinha. E isso fez toda a diferença.
- Fernanda Abelin
- 20 de mai.
- 5 min de leitura

“Em que momento a gente começou a acreditar que só vale a pena viver certas experiências quando temos alguém ao lado?”
Eu pensei nisso enquanto dirigia sozinha para um congresso que, até poucos dias antes, eu sequer lembrava que estava inscrita. No meio de uma rotina agitada e de uma mudança de cidade à qual eu ainda estava tentando me adaptar, fui surpreendida por uma mensagem de confirmação. E, de repente, aquela decisão tomada meses antes reapareceu diante de mim como um convite.
Mas havia um detalhe: em cima da hora, as duas amigas que eu poderia convidar estavam viajando. E eu também não sabia de ninguém do meu grupo de colegas que iria. Ou seja, se eu quisesse participar daquele congresso, teria que ir sozinha. Não teria companhia para dividir a estrada, o hotel, os cafés entre as palestras ou os comentários depois de uma fala interessante. Não teria aquela sensação confortável de pertencimento automático que a presença de alguém conhecido oferece.
Mas a verdade é que nem passou pela minha cabeça não ir.
Congressos, para mim, sempre foram muito mais do que eventos profissionais. Sempre foram momentos de aprendizado, inspiração, troca, mas também uma espécie de respiro da rotina. Um espaço onde eu me sinto estimulada, curiosa, viva e me divirto com as amigas. Um lugar onde ideias me preenchem, onde conversas me alimentam e onde eu sempre volto um pouco diferente de como cheguei. Ainda assim, confesso: parecia estranho imaginar tudo aquilo acontecendo sem companhia. Chegar sozinha. Sentar sozinha. Circular sozinha. E foi inevitável pensar em quantas vezes a gente deixa de viver experiências porque acredita que precisa de companhia para legitimar aquilo.
Então, em algum momento, eu simplesmente fui.
E hoje percebo que a experiência começou muito antes da primeira palestra. Ela começou no instante em que eu decidi que a falta de companhia não seria um impedimento. Só precisaria organizar toda a logística sozinha. Mas, curiosamente, havia algo libertador nisso também.
Quando entrei no carro e peguei a estrada, havia um silêncio diferente comigo. Como se eu estivesse atravessando não apenas quilômetros, mas uma versão antiga de mim mesma. Fazia algum tempo que eu não fazia algo assim. E talvez por isso essa viagem tenha me marcado tanto.
Eu podia ouvir as músicas que eu queria, na altura que eu queria, repetir a mesma canção três vezes sem ninguém reclamar, mudar a rota se tivesse vontade, parar onde eu quisesse. Parece um detalhe pequeno, mas hoje eu entendo que a liberdade mora justamente nessas coisas mínimas. Na possibilidade de existir inteira dentro de uma experiência sem precisar adaptar constantemente os próprios desejos à presença do outro.
Reservei hotel sozinha. Fiz check-in sozinha. E confesso que me senti incomodada quando o recepcionista perguntou se eu estava desacompanhada. Como se ainda existisse algo minimamente incomum numa mulher chegando sozinha a um hotel. Entrei no quarto sozinha. E pior: o hotel era bem ruim e eu não podia nem terceirizar a culpa pela escolha. Não tinha para quem olhar e dizer “foi ideia sua”. A decisão tinha sido inteiramente minha. Inclusive a escolha errada.
Mas, naquele quarto silencioso, aconteceu uma coisa que pode parecer pequena para quem lê, mas foi enorme para mim: eu percebi que a minha companhia estava mais do que suficiente.
A gente vive numa cultura que transforma a solitude quase sempre em ausência. Como se estar sozinho fosse automaticamente sinal de falta, rejeição ou fracasso emocional. Como se felicidade legítima precisasse sempre vir acompanhada. E talvez por isso tanta gente espere. Espere alguém viajar junto. Espere alguém amar. Espere alguém validar. Enquanto isso, a vida vai ficando adiada.
Quantas experiências a gente deixa de viver esperando a companhia certa? Quantos lugares deixam de ser conhecidos? Quantas memórias deixam de existir? Quantas versões nossas ficam estacionadas porque ninguém pôde ir junto?
Mas naquele congresso eu comecei a entender outra coisa: existe uma liberdade enorme em perceber que é possível ir e vir sem companhia.
E não foi uma experiência cinematográfica. Não foi aquela virada exagerada que os discursos motivacionais vendem. Foi algo muito mais real e, talvez por isso, muito mais transformador. Foi perceber que eu podia circular no meu próprio ritmo, escolher as palestras que queria assistir sem negociar nada, mudar de ideia, sentar onde quisesse, ir embora na hora que sentisse vontade. E, principalmente, foi perceber o quanto estar sozinha me deixou aberta para o mundo.
Se eu estivesse acompanhada, provavelmente teria vivido tudo de forma mais confortável. Mas também mais limitada. Porque existe uma tendência natural de permanecer dentro da nossa própria bolha quando temos alguém conhecido ao lado.
Sozinha, não. Sozinha, eu precisei olhar ao redor.
Conversei com pessoas que talvez eu nunca tivesse conhecido se estivesse acompanhada. Ouvi histórias inesperadas. Fiz conexões espontâneas. Compartilhei conversas honestas com desconhecidos que, por alguns minutos, pareciam amigos de infância. E isso me humanizou de um jeito que eu não esperava.
Porque a gente costuma olhar para os outros imaginando que só nós sentimos medo, inadequação ou desconforto social. Mas não. Quase todo mundo está tentando parecer mais seguro do que realmente se sente. E talvez justamente por isso eu tenha me sentido tão inteira estando sozinha.
Claro que houve momentos desconfortáveis. O silêncio do quarto do hotel no fim do dia. O café da manhã sem conversa. A sensação vulnerável de entrar sozinha em alguns ambientes. Mas também houve algo bonito naquilo tudo. Em algum momento, eu me dei conta de que estava completamente à vontade com a minha própria companhia. E mais do que isso: estava gostando muito dela.
E essa talvez tenha sido a parte mais transformadora de todas.
Descobrir que eu conseguia me sustentar emocionalmente em lugares onde antes talvez buscasse apoio externo quase por reflexo. Não porque eu não precise de ninguém. Não porque independência seja sinônimo de força absoluta. Mas porque existe uma diferença enorme entre querer companhia e precisar dela para existir plenamente.
Existe uma maturidade linda em descobrir que você consegue ocupar espaços sem ser conduzida até eles.
E acho que foi isso que eu trouxe daquele congresso. Não apenas aprendizado profissional. Mas uma espécie de reencontro comigo mesma.
Voltei diferente. Mais leve. Mais consciente. Mais corajosa nas pequenas coisas. Não por não ter medo, mas por decidir não deixar que ele escolha a minha vida por mim.
Hoje eu entendo que aquele congresso não foi apenas sobre palestras. Foi sobre perceber quantas experiências a gente deixa de viver esperando companhia. Quantas versões nossas ficam paradas aguardando o cenário perfeito. Quantos encontros deixamos de ter porque temos medo de chegar sozinhos.
E talvez eu esteja escrevendo isso para alguém que também está adiando alguma coisa agora. Uma viagem. Um curso. Um restaurante. Um evento. Uma vida. Esperando alguém ir junto.
Mas talvez a experiência que mais possa transformar você seja justamente aquela que começa quando ninguém vai. E você vai mesmo assim.
Porque às vezes, o caminho mais importante que a gente percorre é justamente aquele em que aprende a caminhar ao lado de si mesmo.
Fernanda Abelin



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