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Do lado do avesso

  • Foto do escritor: Fernanda Abelin
    Fernanda Abelin
  • 25 de mar.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 27 de mar.

A verdade que mora por trás do que mostramos


Quando eu era pequena, minha casa vivia cheia. Tios, primos, amigos de outras cidades atravessavam a porta com a naturalidade de quem sabe que será bem recebido. Entre todas as visitas, havia uma presença constante: uma tia viúva, que chegava sempre no ônibus das 20h. Havia algo de ritual naquele encontro, algo que transformava uma noite comum em uma pequena cerimônia familiar. Eu ia com meu pai buscá-la na rodoviária, enquanto minha mãe organizava o jantar, e aquele trajeto carregava uma expectativa que eu, ainda criança, não sabia nomear.


Ela descia sempre por último. Trazia uma mala discreta, algumas balas e uma sacola onde guardava seus bordados em andamento. Aquilo me fascinava. Havia uma espécie de magia naquele tecido que, aos poucos, ganhava forma sob suas mãos. Eu queria aprender aquele gesto delicado de transformar linha em desenho, como se ali estivesse escondido algum tipo de poder secreto.


Eu devia ter seis ou sete anos, e a minha paciência era exatamente do tamanho da minha idade: pequena, inquieta, facilmente vencida pelo tédio. Nunca consegui terminar metade de uma tela. Começava com entusiasmo e abandonava no primeiro sinal de dificuldade. Sob protestos (muitos!) ela assumia o trabalho, corrigia meus erros, desmanchava meus pontos com uma precisão quase cirúrgica e, inevitavelmente, comentava a minha falta de persistência. Reclamar parecia ser uma de suas especialidades, tão afiada quanto a tesoura que usava para desfazer o que eu havia feito às pressas.


Mas, entre todas as exigências, havia uma que se repetia com insistência, como se fosse a regra mais importante de todas:


O lado avesso precisa ser tão bonito quanto o lado direito.


Eu não entendia. Para mim, aquilo não fazia sentido algum. O lado avesso ficaria escondido sob a moldura, invisível para qualquer olhar. Por que tanto esforço com aquilo que ninguém veria? Ainda assim, eu tentava. Talvez em busca da aprovação dela. Talvez pelas balas. Talvez apenas para evitar suas críticas intermináveis. Ou talvez porque, mesmo sem compreender, alguma coisa naquela frase já começava a se alojar em mim.


Hoje eu não bordo. Minha paciência continua curta para agulhas e linhas. Curiosamente, o lado direito até ficava bonito. O problema sempre foi o avesso.


Demorei muitos anos para perceber que essa história nunca foi apenas sobre bordado. O lado avesso saiu das telas e passou a existir em outro lugar, mais silencioso e mais complexo: no território das emoções.


Aprendi, sem que ninguém precisasse explicar diretamente, que algumas emoções podiam ser mostradas. Outras não. As consideradas bonitas como a alegria, tranquilidade e leveza eram bem-vindas. As difíceis, tristeza, raiva e cansaço, precisavam ser organizadas, disfarçadas, mantidas sob controle. Como se o avesso revelasse algo que não deveria ser visto. Como se sentir demais fosse um erro a ser corrigido.


Por muito tempo, tentei viver assim. Ajustando o que sentia, aparando excessos, escondendo tudo aquilo que pudesse parecer desalinhado. Tristeza em excesso parecia fraqueza. Raiva era interpretada como descontrole. Cansaço, quase uma falha de caráter. Sem perceber, fui me tornando especialista em bordar um lado direito aceitável, enquanto acumulava, no avesso, fios soltos, nós apertados e remendos improvisados.


Mas a vida tem uma didática própria. E uma paciência infinita, muito maior do que a minha com bordados.


Ela ensina, cedo ou tarde, que não existe lado direito sem lado avesso. Um sustenta o outro. Um dá sentido ao outro.


Por mais que a gente tente esconder as imperfeições, elas encontram um caminho para aparecer. Num suspiro mais pesado do que o habitual. Num silêncio que carrega mais do que ausência de palavras. Num olhar que denuncia aquilo que tentamos organizar por dentro. Somos feitos dessa mistura. Dessa tessitura irregular que insiste em existir, apesar dos nossos esforços em torná-la perfeita.


Com o tempo, fui entendendo que a beleza não está na perfeição do desenho, mas na verdade dele. Nos nós que contam histórias. Nas marcas deixadas por quem tentou, insistiu, errou e recomeçou. Existe uma honestidade profunda em tudo aquilo que não foi feito para parecer impecável, mas para ser vivido.


Há dias em que estamos alinhados, vibrantes, seguros. Em outros, somos apenas o avesso: confusos, cansados, desalinhados por dentro. E tudo bem. É esse contraste que nos torna humanos. É essa alternância que dá textura à experiência de existir.


Aceitar o próprio avesso é parar de lutar contra aquilo que também nos constitui. É reconhecer que sentir faz parte. Que fragilidade não é defeito, mas linguagem da experiência. É uma forma de escutar a própria vida acontecendo.


Quando começamos a integrar essas partes, algo muda de maneira sutil, mas profunda. Ficamos mais leves. Mais inteiros. E, curiosamente, mais próximos uns dos outros. Porque ninguém se conecta com a perfeição. As pessoas se reconhecem no que é real. No que falha. No que tenta. No que segue, mesmo sem garantia de acerto.


Demorei alguns anos para entender que é o esforço exaustivo de tentar esconder o próprio avesso que faz as pessoas adoecerem, e não o avesso em si. A vida não exige perfeição; exige verdade suficiente para que o desenho não se rompa ao primeiro atrito com a realidade. Aquilo que sustentamos em silêncio acaba, cedo ou tarde, pedindo espaço para existir. E talvez crescer seja exatamente isso: parar de investir tanta energia em parecer alinhado e começar, com mais honestidade, a construir um jeito mais inteiro de existir, tecido com verdade, mas também com nós, emendas e recomeços.


Fernanda Abelin

 
 
 

2 comentários


Nailú Nardi
25 de mar.

Nanda! Que texto impecável!!! Que alegoria certeira tanto quanto um tapa na nuca, hehehe! É sobre isso a vida!!!! Resumiu brilhantemente a tarefa de ser nessa vida! Me identifico tanto que me emocionei! Parabéns!!!!

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Convidado:
há 5 horas
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Obrigada por compartilhar isso!! Fico super feliz quando algo que eu escrevo toca alguém l!!😘

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