Os homens de lata
- Fernanda Abelin
- há 3 dias
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Alguns homens não nasceram frios. Apenas aprenderam muito cedo que sentir podia ser perigoso.
Na história de O Mágico de Oz, o Homem de Lata caminha pela estrada angustiado com uma ausência que acredita carregar dentro de si. Está convencido de que lhe falta justamente aquilo que, para ele, tornaria alguém verdadeiramente humano: um coração.
Seu maior desejo é encontrar o Mágico e pedir um, como se aquele pequeno órgão pudesse finalmente corrigir aquilo que ele acredita ser uma falha fundamental em si mesmo.
Mas há um detalhe curioso na narrativa. Ao longo da jornada, o Homem de Lata se revela talvez o personagem mais sensível do grupo. Ele se preocupa com os outros, se comove com pequenas injustiças, demonstra cuidado, empatia e delicadeza. Em vários momentos da história, suas atitudes revelam exatamente aquilo que ele acredita não possuir.
O coração, na verdade, sempre esteve ali.
O que faltava não era sentimento. Era reconhecer que ele existia.
Talvez por isso essa história sempre me volte à memória em algumas situações do consultório. Em atendimentos de casal, não é raro que uma das queixas apareça mais ou menos assim: “Parece que ele não tem coração”.
A sensação relatada costuma ser de frieza, distância emocional e dificuldade de demonstrar afeto.
Nesses momentos, muitas vezes lembro do Homem de Lata. E, às vezes, até compartilho a história.
Porque, na vida real, muitos homens acabam sendo vistos dessa maneira. Não necessariamente porque sejam frios por natureza, mas porque aprenderam muito cedo que demonstrar emoções não era exatamente bem-vindo.
Meninos que cresceram ouvindo frases como “homem não chora”, “engole o choro”, “seja forte”. Frases aparentemente simples, mas que vão ensinando, pouco a pouco, uma forma muito particular de lidar com o próprio mundo emocional.
Alguns também aprenderam algo ainda mais duro: que chorar não adiantava. Que demonstrar fragilidade não traria acolhimento. Em certos contextos, sentir parecia até perigoso.
Quando essas experiências se repetem ao longo da infância, muitos acabam construindo uma espécie de proteção emocional. Uma armadura silenciosa que ajuda a atravessar situações difíceis. Uma lataria.
Talvez por isso a metáfora do Homem de Lata seja tão poderosa. Na história original, ele não nasceu de lata. Antes era um lenhador humano que se apaixonou por uma jovem. Aos poucos, por causa de uma maldição lançada sobre seu machado, foi perdendo partes do corpo. Cada vez que algo era perdido, um funileiro o reconstruía em metal.
Primeiro uma perna. Depois a outra. Depois os braços.
Até que, em determinado momento, quase todo o corpo havia sido substituído por lata.
Quando o peito foi reconstruído, o coração não voltou para o lugar.
E foi aí que ele passou a acreditar que já não podia amar.
Alguns homens não deixaram de sentir. Apenas aprenderam muito cedo a esconder o que sentem.
Com o tempo, essa proteção pode permanecer. E o menino que aprendeu a se defender assim se torna um homem que sente, mas nem sempre aprendeu a deixar isso aparecer.
É curioso como, em muitos relacionamentos, essa diferença de linguagem acaba criando mal-entendidos profundos. Há quem interprete esse silêncio como indiferença. Há quem entenda como falta de sensibilidade. Mas, em muitos casos, não se trata de ausência de emoção. Trata-se apenas de uma forma de proteção aprendida muito cedo.
Assim como o Homem de Lata, alguns homens passam grande parte da vida acreditando que lhes falta algo essencial, como se a sensibilidade fosse um território inacessível, reservado a outras pessoas.
Mas, quando observamos com atenção, o afeto aparece. Muitas vezes surge de outras maneiras: na responsabilidade assumida, no cuidado prático, na presença constante, no esforço de sustentar quem ama. No jeito às vezes desajeitado de demonstrar carinho. Para quem olha de fora, porém, às vezes parece faltar algo. Falta conversa emocional. Falta nome para o que acontece dentro.
O coração, muitas vezes, nunca deixou de existir. Apenas ficou protegido por camadas de lataria.
Talvez parte da maturidade emocional, tanto para homens quanto para mulheres, seja aprender a reconhecer essas diferentes formas de sentir. Nem todo afeto se expressa em palavras. Nem toda sensibilidade aparece de maneira evidente. Algumas pessoas foram ensinadas a falar sobre emoções. Outras aprenderam a carregá-las em silêncio.
Isso não significa que novos caminhos não possam ser construídos. A vida emocional também pode se ampliar ao longo do tempo. Às vezes lentamente, às vezes com alguma dificuldade, mas quase sempre com uma certa beleza no processo.
Curiosamente, quando o Homem de Lata finalmente encontra o Mágico, descobre algo inesperado. O coração que ele tanto buscava não precisava ser criado. De certa forma, ele já havia demonstrado esse coração ao longo de toda a jornada.
Talvez a história nunca tenha sido sobre alguém que realmente não tinha um coração.
Talvez tenha sido sobre alguém que passou muito tempo acreditando que não tinha.
Porque, às vezes, o coração nunca deixou de existir. Apenas ficou protegido por camadas de lata.
Fernanda Abelin



Incrível como ler sua página traz conhecimentos, ou uma forma mais simples de compreender uma situação comum à todos. Maravilhoso seu olhar e suas palavras.