Minha vida deu certo?
- Fernanda Abelin
- 19 de ago.
- 3 min de leitura

Não sei em que momento decidimos o que significa uma vida dar certo.
Esses tempos, atendi uma paciente de 27 anos que me dizia, bastante angustiada, que naquela idade imaginava que já estaria mais estabilizada financeiramente, com a carreira encaminhada e quase casando.
Fez uma pausa e completou:
— E eu não tenho nem namorado.
Perguntei de onde ela havia tirado a ideia de que, aos 27 anos, a vida deveria estar nesse lugar.
Ela não soube responder.
E talvez a maioria de nós também não saiba.
Em algum momento, aprendemos que existia uma espécie de cronograma para a vida. Uma sequência mais ou menos esperada das coisas: estudar, escolher uma profissão, trabalhar, encontrar alguém, construir uma família, conquistar estabilidade.
Não recebemos esse roteiro impresso quando nascemos. Mas, de algum modo, passamos a consultá-lo para saber se estamos adiantados, atrasados ou exatamente onde deveríamos estar.
E fomos fazendo.
Algumas coisas porque queríamos muito. Outras porque pareciam ser o próximo passo. Algumas porque eram possíveis naquele momento. E tantas porque nunca nos ocorreu perguntar se queríamos diferente.
E não tem problema em desejar nenhuma dessas coisas. O problema está em transformar desejos em critérios para medir se uma vida deu certo.
Quando fazemos isso, corremos o risco de passar anos tentando chegar à vida que imaginamos que deveríamos ter e, quando finalmente chegamos, descobrir que já não somos mais nem a pessoa que a imaginou.
E é aí que a pergunta muda, de “será que a minha vida deu certo?” para “eu ainda caibo na vida que construí?”
Aos vinte e poucos anos escolhemos uma profissão sem conhecer a pessoa que seremos aos cinquenta. Escolhemos com quem dividir a vida sem saber todas as versões de nós que aquele relacionamento ainda vai conhecer. Temos filhos sem imaginar quem seremos quando eles crescerem e já não precisarem de nós da mesma maneira.
Tomamos decisões importantes com aquilo que sabemos sobre nós naquele momento. E não poderia ser diferente.
O que talvez esqueçamos é que a vida continua acontecendo depois das escolhas.
Nós mudamos.
Mudam os interesses, as prioridades, os limites. Algumas ambições que eram enormes perdem importância. Outras aparecem quando já imaginávamos que deveríamos estar satisfeitos. Aquilo que durante muito tempo nos realizou pode começar a ocupar muito espaço. E coisas que deixamos para depois podem começar a pedir lugar.
Só que admitir isso pode ser muito difícil. Principalmente quando olhamos para trás e sabemos que não escolheríamos apagar o caminho que fizemos.
Aquele trabalho pode ter sido exatamente o que queríamos durante muitos anos. Aquele casamento continua sendo importante. A maternidade ocupou o centro da vida porque era exatamente ali que queríamos estar.
O fato de alguma coisa já não nos servir da mesma maneira não significa que tenha sido uma escolha errada. Nem tudo o que deixa de fazer sentido foi um erro. Às vezes, apenas deixou de fazer sentido do mesmo jeito.
E pode ser aí que a gente se atrapalhe. Porque é muito mais fácil autorizar uma mudança quando alguma coisa está claramente ruim. Quando temos um motivo que conseguimos explicar para os outros e, principalmente, para nós mesmos.
Muito mais difícil é mexer naquilo que funciona. Naquilo que deu certo.
E pode ser por isso que passamos tanto tempo vivendo de acordo com escolhas feitas muitos anos atrás sem voltar a perguntar se ainda as faríamos hoje.
E não estou falando de abandonar casamento, profissão, família ou tudo o que construímos. Longe disso.
Estou falando de permitir que a vida também mude quando nós mudamos.
Às vezes isso exige uma grande decisão. Muitas vezes, não.
Pode ser voltar a fazer alguma coisa que ficou esquecida. Deixar de assumir uma responsabilidade que nunca precisou ser só nossa. Mudar a forma de trabalhar. Reorganizar um casamento. Descobrir quem somos quando os filhos já não ocupam tanto espaço na rotina.
Talvez, de tempos em tempos, valha olhar para a vida que construímos e fazer uma pergunta:
Se eu pudesse escolher de novo, com a pessoa que sou hoje, o que eu escolheria manter exatamente como está?
Pra mim, uma vida dar certo é isso: poder continuar escolhendo enquanto a gente vive.
E pra ti?
Fernanda Abelin



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