Por que algumas famílias voltam das férias mais cansadas do que partiram?
- Fernanda Abelin
- 29 de jul.
- 3 min de leitura

As férias escolares costumam chegar acompanhadas de uma expectativa boa. Os horários ficam mais flexíveis, as crianças não precisam acordar cedo, algumas famílias viajam, outras aproveitam para diminuir o ritmo. Depois de meses seguindo horários e compromissos, finalmente chega aquele período em que, em teoria, todos terão mais tempo para descansar e ficar juntos.
Há alguns anos, ouvi uma mãe dizer uma frase que me marcou. O filho pequeno estava entrando em férias escolares e ela comentou: “Agora acabaram as minhas férias.”
Confesso que, naquele momento, a frase me incomodou. Mas também consegui entender a ansiedade que existia por trás daquela fala. Para ela, as férias do filho significavam uma mudança completa na rotina. Mais horas de cuidado, mais refeições para organizar, mais tempo para preencher, mais demandas para administrar e uma criança pequena que, naturalmente, precisaria muito mais da sua presença.
Essa frase representa algo que acontece em muitas casas quando chegam as férias escolares.
Basta a rotina mudar para descobrirmos que passar mais tempo juntos não significa, necessariamente, uma convivência mais fácil ou prazerosa.
As crianças passam mais tempo em casa, os pais precisam reorganizar o trabalho, os horários mudam, as refeições perdem a regularidade e a estrutura que, durante o ano, mantém cada pessoa ocupada com seus próprios compromissos deixa de existir. A família, que se encontrava somente em determinados momentos do dia, passa a conviver muito mais.
E podemos pensar: quem consegue descansar quando todos estão em casa? Quem continua pensando no que as crianças vão fazer, no que vão comer e em como ocupar o dia? Quem organiza os passeios? Quem se irrita quando os planos mudam? Quem precisa de um pouco de tempo sozinho e quem quer companhia o tempo inteiro? E, principalmente, quem assume a responsabilidade de fazer com que as férias sejam boas para todos?
Durante o ano, a rotina organiza muito mais do que os nossos horários. Ela também organiza a convivência. Cada um sabe onde precisa estar, o que precisa fazer e quais responsabilidades precisa cumprir. Passamos boa parte do dia separados e, muitas vezes, nos encontramos quando grande parte das decisões já foi tomada.
Nas férias, essa organização muda e passamos a conviver mais com as diferenças, com os hábitos que incomodam e com expectativas que, geralmente, não combinam.
Conclusão: algumas famílias voltam das férias mais cansadas do que partiram.
Não necessariamente porque viajaram demais ou descansaram de menos, mas porque levaram para as férias a expectativa de que todos deveriam aproveitar. De que todos deveriam estar felizes, querer fazer as mesmas coisas e aproveitar cada momento juntos porque, afinal, estão de férias.
Só que uma família é formada por pessoas diferentes.
Enquanto uma quer descansar, outra quer passear. Uma criança reclama que está entediada. Um adolescente prefere ficar no quarto. Um dos pais precisa continuar trabalhando, enquanto o outro sente que ficou responsável por pensar nos programas, organizar os horários e garantir que ninguém desperdice as férias.
Quando aquilo que imaginamos para esses dias encontra aquilo que a nossa família realmente consegue viver, a frustração aparece.
Então, sugiro que estas férias sirvam também para observarmos como funcionamos quando a rotina deixa de organizar a vida por nós. Não apenas quanto tempo conseguimos passar juntos ou os lugares para onde viajamos, mas o que acontece entre nós quando convivemos mais.
Quem consegue descansar? Quem continua cuidando? Quem decide o que todos vão fazer? Quem cede mais? Quem precisa garantir que todos estejam bem?
Essas respostas dizem muito sobre a forma como uma família se organiza durante todo o ano. As férias não criam problemas que não existiam. O que elas fazem, muitas vezes, é aumentar o tempo de convivência e tornar mais evidente aquilo que, no dia a dia, passa despercebido entre um compromisso e outro.
Por isso, algumas famílias podem voltar das férias mais cansadas do que partiram. Descansar juntos também exige aprender a conviver com ritmos, desejos e necessidades diferentes.
E isso pode ser bem mais difícil do que escolher o destino da próxima viagem.
Fernanda Abelin



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