top of page
Buscar

A diferença é que agora ela tem a mim

Foto do escritor: Fernanda Abelin
Fernanda Abelin
há 3 dias
3 min de leitura

Tenho uma fotografia minha, com aproximadamente um ano de idade, na mesa do meu consultório.


Ela fica ali, na minha frente, todos os dias.


Olho para aquela menina, a Fernandinha, e penso em tudo o que ela ainda não sabia sobre a vida. Não sabia quem seria, o que viveria, quem encontraria pelo caminho. Não sabia que algumas experiências deixariam marcas, que aprenderia maneiras de buscar amor, de se proteger, de pedir cuidado, de lidar com alguma rejeição, com o medo e com a ausência.


Também não sabia que algumas dessas aprendizagens continuariam com ela muito depois de a infância terminar.


Porque a infância termina. Mas aquilo que aprendemos nela sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre o que precisamos fazer para nos sentirmos seguros não desaparece simplesmente quando crescemos.


Levamos muita coisa conosco.


É por isso que, às vezes, uma situação aparentemente pequena pode despertar uma emoção tão grande. Por exemplo, uma demora em responder uma mensagem pode ser sentida como abandono. Uma crítica pode tocar um lugar muito maior do que aquilo que foi dito. Um afastamento pode provocar uma angústia que não sabemos como explicar. Uma mudança no tom de voz pode nos colocar imediatamente na defensiva.


E então pensamos: por que estou sentindo tudo isso por causa de tão pouco?


Só que, muitas vezes, aquela emoção não é tão desproporcional quanto parece.


Ela pode ser grande demais para o acontecimento de hoje, mas fazer todo sentido quando encontramos a história que veio junto com ele.


Às vezes, quando percebo em mim uma emoção que parece maior do que aquilo que está acontecendo no presente, olho para a fotografia que está na minha mesa e pergunto àquela menina:


“O que você quer me dizer? Do que você está precisando para se sentir segura?”


E ela sempre me responde.


Às vezes, precisa que eu diga que não será abandonada. Outras, que não precisa agradar para ser amada. Que pode errar. Que não precisa dar conta de tudo. Que aquilo que está acontecendo agora não é aquilo que aconteceu antes.


Não se trata de viver olhando para o passado ou de atribuir à infância a responsabilidade por tudo o que sentimos na vida adulta.


Trata-se de compreender. Porque, senão, aquilo que não compreendemos tende a continuar aparecendo nas nossas relações, nas nossas escolhas e nas nossas reações. E, muitas vezes, esperamos que outras pessoas resolvam necessidades que nasceram muito antes de elas chegarem à nossa vida.


Esperamos que alguém finalmente nos dê segurança suficiente. Que nos escolha de um jeito que apague todas as vezes em que não nos sentimos escolhidos. Que nos ame de uma forma capaz de reparar aquilo que um dia nos faltou.


E o grande triunfo do nosso processo de amadurecimento é quando paramos de esperar que alguém volte no tempo para nos dar aquilo que deveríamos ter recebido.


A diferença é que hoje aquela menina não precisa mais esperar das mesmas pessoas o que um dia precisava ter recebido delas.


Hoje sou eu quem pode oferecer a ela o que precisa.


Posso acolhê-la, protegê-la, tranquilizá-la. Posso lembrá-la de que algumas coisas que um dia foram ameaçadoras já não são mais. Posso ajudá-la a diferenciar o que pertence à sua história daquilo que realmente está acontecendo agora.


A emoção não precisa desaparecer imediatamente. Também não precisa ser combatida, julgada ou ignorada. Mas ela encontra um lugar dentro de mim. Pode ser compreendida, acolhida e, pouco a pouco, deixa de precisar comandar a minha reação.


É muito lindo poder olhar para a criança que fomos sem transformar nossa história em destino.


Entender de onde vieram alguns dos nossos medos sem permitir que continuem decidindo por nós. Reconhecer o que nos faltou sem passar a vida esperando que outra pessoa repare. E assumir, como adultos, a responsabilidade de aprender a oferecer a nós mesmos parte do cuidado, da proteção e da segurança de que ainda precisamos.


Na Semana das Crianças, pensei muito, cada vez que olhava para aquela menina de um ano na minha mesa. Mas não penso apenas em quem ela foi.


Penso que ela continua aqui.


A diferença é que, agora, ela tem a mim.


Fernanda Abelin

 
 
 

Comentários


bottom of page