Por que esperamos que o outro mude quando ele não faz nada para mudar?

Dessa vez, ele prometeu que ia se controlar. Também estava cansado das brigas, sabia que passava do ponto, não queria mais terminar uma discussão daquele jeito. Ela acreditou. Mas bastou a primeira contrariedade e pronto: lá estavam os dois aos gritos novamente.
Em outra casa, a conversa era sobre a mãe dela. Uma situação vinha incomodando o marido, ela concordou que precisava falar com a mãe e disse que encontraria um momento. Os dias passaram, houve um almoço em família, uma visita, algumas ligações. A conversa ficou para depois.
Em outra relação, os dois combinaram reduzir os gastos, até aparecer uma nova compra na fatura. E houve aquele que reconheceu que estava bebendo demais, garantiu que cuidaria disso, mas, no fim de semana seguinte, tudo se repetiu.
Quem acompanha de fora talvez pergunte: “Mas por que continua esperando?” Quem está dentro costuma ter uma resposta: porque a pessoa prometeu. Porque pareceu sincera. Porque, dessa vez, a conversa foi boa e houve a sensação de que finalmente tinham se entendido.
E como é bom sentir isso depois de tanto insistir. A pessoa escuta, concorda, reconhece que precisa fazer diferente. O clima melhora, o carinho volta, os dois conseguem aproveitar a noite. Quem vinha tentando ser ouvido descansa um pouco. Parece que agora vai.
Só que os dias passam e o combinado permanece somente na conversa.
Quando acontece de novo, vem a frustração, mas também a procura por outra maneira de falar. Talvez tenha faltado explicar melhor. Talvez o momento não fosse bom. Quem sabe, com outro exemplo, a pessoa entenda. Então o assunto volta, com mais cuidado ou mais firmeza, e quem espera vai tentando encontrar as palavras que farão o outro agir.
Às vezes, uma conversa mais clara ajuda mesmo. Em outras, a pessoa já entendeu. Sabe o que incomoda, sabe como aquilo afeta a relação, lembra do que prometeu. Ainda assim, vai adiando, repetindo, deixando para depois aquilo que prometeu fazer.
Pode haver dificuldade, medo de enfrentar uma situação, um hábito que custa abandonar. Pode faltar disposição. No caso da bebida, pode ser necessário procurar ajuda. Cada história tem as suas razões, e conhecer alguém de perto também permite enxergar as dificuldades que estão por trás do que essa pessoa faz.
É por isso que quem espera costuma ter tanto a considerar. Lembra das qualidades, do que já viveram juntos, dos dias em que tudo correu bem. Pensa que seria tão bom se aquela questão se resolvesse. A relação tem coisas boas, existe afeto, existem planos. Parece valer a pena tentar mais uma vez.
E assim passam semanas, meses, às vezes anos.
Há sempre uma nova conversa possível enquanto se acredita que o outro ainda não compreendeu. Dá para explicar, lembrar, insistir. Mais difícil é admitir que ele sabe e perguntar: “O que vou fazer se isso continuar?”
A resposta pode mexer com muita coisa que se queria preservar. Com a vida que construíram, com os planos, com o desejo de permanecer juntos. Esperar adia essa decisão e mantém aberta a possibilidade de que a próxima promessa seja cumprida.
Enquanto isso, quem espera também vai mudando. Evita tocar no assunto porque já conhece o caminho da conversa. Faz sozinho o que deveria ter sido dividido. Diminui os pedidos, releva mais uma situação, aproveita os dias bons e tenta não pensar muito no restante.
Até perceber o quanto da própria vida está ficando à espera de uma atitude do outro.
Uma mudança pode levar tempo. Pode haver tentativas que não dão certo, erros, momentos de dificuldade. Mas, quando alguém está cuidando do que prometeu, alguma coisa aparece. A conversa com a mãe é finalmente enfrentada. Os gastos passam a ser acompanhados. A ajuda é procurada. Uma necessidade lembrada tantas vezes recebe atenção sem que seja preciso pedir novamente.
Quando há esforço, quem espera tem algo concreto em que apoiar a sua esperança, mesmo que ainda haja um caminho pela frente. O difícil é acompanhar apenas promessas, sempre renovadas depois que o problema volta.
Talvez valha olhar com mais cuidado para os dias entre uma conversa e outra. Quando a discussão termina e a vida volta à rotina, o que acontece com aquilo que os dois combinaram?
É ali que a promessa começa a ganhar forma. Ou fica à espera da próxima conversa.
E, se nada acontece, por quanto tempo alguém consegue continuar vivendo do que o outro diz que um dia fará?
Fernanda Abelin



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