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Por que nos sentimos tão desconfortáveis quando alguém chora?

Foto do escritor: Fernanda Abelin
Fernanda Abelin
30 de set.
3 min de leitura

Alguém começa a chorar na nossa frente e quase imediatamente sentimos que precisamos fazer alguma coisa. Pegamos um copo de água, oferecemos um abraço, procuramos um lenço, dizemos que vai ficar tudo bem. Se temos alguma intimidade com aquela pessoa, começamos a fazer perguntas, tentamos entender o que aconteceu e, não demora muito, estamos procurando uma explicação, uma saída, alguma coisa que possa ajudá-la a se sentir melhor.


A questão é que somos pouco preparados para permanecer diante da dor de outra pessoa sem tentar modificá-la. Quando gostamos de alguém, vê-lo sofrer nos mobiliza. Queremos ajudar, aliviar, encontrar uma solução. E aqui aparece uma parte do desconforto: é difícil estar diante de uma dor que não podemos resolver.


É difícil conceber a ideia de que nem toda dor pode ser resolvida. Há perdas que não têm solução, notícias que não podem ser desfeitas, términos que precisam ser atravessados, frustrações que não desaparecem. Há medos, decepções e despedidas para os quais não existe uma resposta suficientemente boa. E, nessas horas, estar ao lado de alguém exige uma habilidade que quase nunca desenvolvemos: permanecer diante da dor sem precisar encontrar imediatamente uma maneira de fazê-la passar.


Isso faz com que recorramos tão rapidamente às frases que conhecemos. “Vai passar.” “Não fica assim.” “Você precisa ser forte.” “Poderia ter sido pior.” E uma das mais comuns: “Pelo menos...”


Esse “pelo menos” merece atenção. Quando alguém nos conta uma dor, muitas vezes procuramos alguma coisa que mostre que a situação poderia ser pior. “Pelo menos você tem saúde.” “Pelo menos aconteceu agora.” “Pelo menos você descobriu.” “Pelo menos vocês tentaram.” A intenção costuma ser boa. Estamos tentando oferecer uma perspectiva que diminua o sofrimento. O problema é que, para quem está sofrendo, isso pode soar como se aquela dor precisasse ser colocada em comparação para saber se merece ou não ser sentida.


Só que, naquele momento, a pessoa não precisa descobrir que poderia estar pior. Precisa ter o direito de estar mal, chateada, triste. Precisa poder chorar sem ser interrompida, sem ser apressada e sem sentir que precisa melhorar para tranquilizar quem está ao seu lado.


Quando tentamos fazer a pessoa parar de chorar, enxergar o lado positivo ou encontrar uma solução antes que ela mesma tenha conseguido entender o que está sentindo, podemos acabar apressando um processo que precisava apenas de espaço.


Acompanhar é diferente. Acompanhar exige presença. Exige conseguir ficar alguns minutos sem saber exatamente o que dizer, sem oferecer uma resposta para cada frase, sem transformar imediatamente a dor em aprendizado, conselho ou solução. E isso pode ser muito mais difícil do que parece, porque nos coloca diante da nossa própria impotência. É preciso aceitar que gostamos daquela pessoa, queremos ajudá-la e, ainda assim, naquele momento, pode não existir nada que possamos fazer para mudar o que aconteceu.


Em alguns casos, o silêncio não é ausência de resposta. Há momentos em que ele pode ser uma das formas mais respeitosas de presença. Não porque não haja nada a dizer, mas porque algumas experiências precisam primeiro encontrar espaço antes de encontrar palavras. Às vezes, permanecer ali, sem pressa para preencher o silêncio, permite que a pessoa continue sentindo, pensando e organizando aquilo que ainda nem sabe explicar.


Talvez, diante do choro de alguém, pudéssemos nos preocupar um pouco menos com a pergunta “o que eu posso dizer para fazer essa pessoa se sentir melhor?” e um pouco mais com outra: “eu consigo ficar aqui enquanto ela ainda não está bem?”


Cuidar de alguém não significa necessariamente conseguir tirar sua dor. Há dores que precisam de tempo, outras precisam de ajuda e algumas simplesmente precisam ser vividas.


Quando alguém chora na nossa frente, aquele momento não é sobre o nosso desconforto diante do choro, nem sobre encontrarmos as palavras certas ou fazermos alguma coisa para que ele termine mais rápido. É sobre quem está sofrendo.


E, às vezes, cuidar é simplesmente permitir que a pessoa tenha o tempo e o espaço de que precisa para sentir o que está sentindo, inclusive para chorar.


Fernanda Abelin

 
 
 

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