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Era só ter me pedido

Foto do escritor: Fernanda Abelin
Fernanda Abelin
23 de set.
3 min de leitura

"Você já ouviu essa frase?”


Essa é uma frase que aparece com frequência nas conversas de casais que chegam ao consultório. Geralmente, ela surge quando alguém diz que está cansado de cuidar de muitas coisas sozinho e o outro, quase sempre com sinceridade, responde que poderia ter ajudado, bastava que tivesse sido avisado. A questão é que, muitas vezes, o cansaço não está apenas em fazer, mas em ser a pessoa que precisa perceber o que precisa ser feito.


Quem percebe que o papel higiênico está acabando em casa? Pode parecer uma pergunta pequena, mas pense um pouco antes de responder. Quem percebe que está faltando café, que o remédio está terminando, que é preciso marcar uma consulta, que a criança está precisando de um tênis novo, que a ração do cachorro está no fim, que alguém precisa comprar o presente de aniversário ou que já faz tempo que ninguém liga para os avós?


A vida dentro de uma casa é sustentada por uma quantidade enorme de pequenas coisas que dificilmente chamam atenção enquanto estão funcionando bem. O café está no armário. O presente aparece no dia do aniversário. A consulta está marcada. A roupa de cama é trocada. Os documentos estão separados. Alguém lembra que é preciso comprar determinado material para a escola, confirmar um horário ou providenciar alguma coisa antes que ela falte. Parece que tudo simplesmente acontece. Mas, antes de alguém fazer, alguém precisou perceber.


Falamos bastante sobre divisão de tarefas, mas ainda falamos pouco sobre divisão de atenção, e essa diferença é importante porque duas pessoas podem dividir o que precisa ser feito e, ainda assim, uma delas continuar responsável por pensar em quase tudo. Uma compra, mas a outra precisa avisar o que está faltando. Uma leva ao médico, mas a outra marcou a consulta. Uma prepara a mochila, mas a outra precisou lembrar que no dia seguinte haveria uma atividade diferente na escola. Existe ajuda, existe participação e as tarefas até podem estar distribuídas, mas a responsabilidade de manter a vida funcionando continua concentrada em uma única pessoa.


É nesse ponto que “era só ter me pedido” deixa de ser uma solução tão simples, porque pedir também é trabalho. Para fazer um pedido, alguém precisou perceber, lembrar, decidir o que deveria ser feito, avaliar quando precisava acontecer e transformar tudo isso em uma solicitação.


Muitas vezes, essa pessoa ainda precisa acompanhar, lembrar novamente e verificar se aquilo foi resolvido. Por isso, nem sempre ela está cansada apenas de fazer muitas coisas sozinha. Pode estar cansada de precisar pensar por todos.


Por isso, uma casa nos fala muito mais sobre uma relação do que imaginamos. Não apenas por quem cozinha, limpa, paga as contas ou leva os filhos à escola, mas por quem percebe que alguma coisa precisa ser feita antes que o outro precise pedir. Quando uma pessoa reclama “eu tenho que pedir tudo”, ela não está dizendo apenas “faça mais coisas por mim”. O que ela está tentando dizer é: “Eu queria sentir que você também está atento à nossa vida, que eu não sou a única pessoa responsável por enxergar o que está faltando, antecipar o que pode dar errado e lembrar de tudo o que precisa acontecer.”


Porque pedir também é trabalho. E quando uma pessoa precisa pedir tudo, ela não tem uma parceria. Tem alguém esperando instruções.


Fernanda Abelin

 

 
 
 

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