A romantização da independência está nos afastando da intimidade
- Fernanda Abelin
- 1 de jul.
- 2 min de leitura

A romantização da independência está nos afastando da intimidade. Durante muito tempo, depender de alguém foi tratado como sinal de fraqueza. Aprendemos que o ideal era não precisar de ninguém: resolver tudo sozinho, dar conta do recado, não pedir ajuda e jamais demonstrar vulnerabilidade. E, de certa forma, isso foi uma conquista. Especialmente para as mulheres, que precisaram lutar por autonomia financeira, emocional e pela liberdade de fazer as próprias escolhas. O problema é que, aos poucos, transformamos uma conquista em um ideal absoluto. Assim, a independência deixou de ser uma possibilidade e passou a ser uma obrigação. Hoje, pedir ajuda causa vergonha. Admitir que sentiu falta de alguém parece fragilidade. Precisar do outro passou a ser confundido com perder a própria identidade.
No consultório, vejo homens e mulheres extremamente competentes para trabalhar, criar filhos, administrar uma casa e resolver problemas complexos. Pessoas que sustentam famílias inteiras, lideram equipes e enfrentam enormes responsabilidades, mas que se sentem profundamente desconfortáveis em precisar de alguém. Romantizamos tanto a autossuficiência que esquecemos uma das características mais fundamentais da condição humana: somos seres de vínculo. Ninguém nasce sozinho, ninguém aprende a existir sozinho e ninguém constrói uma história completamente sozinho.
Existe uma diferença enorme entre autonomia e autossuficiência. São conceitos profundamente distintos. A maturidade emocional não elimina — e nunca eliminará — a necessidade do outro. Pelo contrário. Ela nos permite depender sem nos perder, construir uma vida própria e, ao mesmo tempo, abrir espaço para que alguém ocupe um lugar importante nela.
Os vínculos mais saudáveis não são aqueles em que ninguém precisa de ninguém, mas sim aqueles em que cada um é capaz de sustentar a própria vida e escolhe compartilhar a caminhada. Porque a intimidade não nasce da fusão. Ela nasce quando duas pessoas inteiras abaixam as defesas, despem-se de suas armaduras e mostram suas fragilidades, descobrindo que não existe vergonha em precisar, às vezes, de suporte: seja de uma ajuda prática, de um abraço, de uma escuta, de um conselho ou, simplesmente, de uma presença silenciosa.
A verdadeira independência não é viver como se ninguém fizesse falta. É saber que você consegue seguir sozinho, mas reconhecer que a vida ganha outra dimensão quando existem pessoas com quem dividir os perrengues, as alegrias, os medos, as conquistas e as perdas. Esse é um dos grandes aprendizados da vida adulta: continuar sendo inteiro sem deixar de ser profundamente conectado. Porque existem situações que só nós podemos enfrentar, mas há outras que se tornam infinitamente mais leves quando um amigo permanece, quando um irmão telefona, quando um filho oferece um abraço, ou quando um parceiro segura a nossa mão e simplesmente diz: "Eu estou aqui."
No fim das contas, força não é não precisar de ninguém. Força é saber que você pode caminhar sozinho, mas ainda assim permitir que o amor, a amizade e os afetos ocupem um lugar na sua vida. A independência nos faz sobreviver, mas são os vínculos que dão sentido ao viver.
Fernanda Abelin



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