O perigo de transformar toda dificuldade em trauma
- Fernanda Abelin
- há 3 dias
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Vivemos um momento importante na forma como entendemos a saúde mental. Hoje falamos mais sobre emoções, reconhecemos o impacto das experiências difíceis e buscamos ajuda com menos preconceito. Isso representa um avanço inegável. Mas existe um movimento paralelo que merece a nossa atenção: a tendência de transformar qualquer sofrimento em trauma. Nem toda decepção é traumática. Nem toda rejeição deixa uma ferida permanente. Nem toda infância imperfeita condena um adulto a viver refém do passado. Existe uma diferença enorme entre uma experiência que nos marca profundamente e uma experiência que simplesmente nos confronta com a realidade da vida.
Essa banalização do trauma ganhou muita força com o vocabulário que importamos das redes sociais. Hoje, quase sem perceber, começamos a patologizar o cotidiano: qualquer grosseria vira gaslighting, qualquer término doloroso é rotulado como abuso, qualquer chefe exigente vira um narcisista e o estresse de uma semana cheia logo é chamado de burnout. Ao fazermos isso, esvaziamos o peso das palavras e, pior, empobrecemos a nossa capacidade de lidar com o mundo. Perder, fracassar, ser criticado, ouvir um não, enfrentar uma rejeição ou lidar com uma frustração faz parte da existência humana. São acontecimentos dolorosos, sim, mas também são oportunidades de crescimento. Quando classificamos toda e qualquer dificuldade como trauma, corremos o risco de retirar das pessoas a confiança na própria capacidade de enfrentar as adversidades. Em vez de fortalecer os recursos internos, passamos a acreditar que qualquer desconforto é um sinal de que fomos quebrados, de que somos frágeis demais para suportar o peso da realidade.
No consultório, vejo que muitas vezes o trabalho não consiste em convencer alguém de que ele não sofreu, até porque toda dor é real e legítima. O verdadeiro trabalho é ajudá-lo a perceber que ele é muito maior do que aquilo que viveu. Existe uma potência oculta na nossa capacidade de elaboração que a pressa dos diagnósticos de internet costuma apagar. Há dores que precisam de tempo, de espaço e de uma escuta atenta para serem digeridas, claro. Há traumas reais que exigem cuidado especializado e paciência. Só que há também experiências difíceis que não vêm para nos destruir, mas para nos inaugurar. São rupturas que, depois de atravessadas, ampliam a nossa capacidade de amar, de fazer escolhas e de existir com mais propriedade.
Acredito que uma sociedade emocionalmente saudável não é aquela que evita toda dor a qualquer custo, nem aquela que cria ambientes perfeitamente blindados contra qualquer desconforto. Uma sociedade saudável é aquela que consegue distinguir uma ferida que precisa de pontos dos desafios inevitáveis de estar vivo. Precisamos resgatar a nossa capacidade de suportar os invernos da vida sem achar que o mundo acabou. No fim das contas, a vida não nos quebra a cada esquina; ela apenas nos convida a crescer.
Fernanda Abelin



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