Provavelmente uma das maiores crises da vida adulta é se dar conta de que ninguém está vindo
- Fernanda Abelin
- 24 de jun.
- 3 min de leitura

Há alguns anos, venho percebendo que uma das maiores crises da vida adulta acontece quando nos damos conta de que ninguém está vindo.
Normalmente, a gente começa a perceber isso devagar. Às vezes, numa madrugada de insônia. Às vezes, durante uma doença. Às vezes, depois de uma grande perda. Mas, quando essa percepção chega, ela mexe muito fundo e reorganiza alguma coisa dentro de nós.
Recentemente, um paciente atravessava o luto pela morte do pai. Era um homem adulto, casado, com filhos, profissional competente, alguém plenamente funcional. Trabalhava, cuidava da família, resolvia problemas e ocupava o lugar que a vida esperava dele. Ainda assim, no meio da sessão, interrompeu a própria fala e disse, com muita tristeza e um tom de preocupação quase infantil:
— Fernanda... agora não tem mais ninguém.
A mãe havia morrido alguns anos antes. Naquele instante, ele se dava conta da própria orfandade. Mas não era apenas da ausência física dos pais que ele falava. O que o atravessava era a percepção de que já não existia mais uma geração acima dele. Não havia mais aquele lugar para onde voltar quando a vida pesasse demais. Não alguém que resolvesse seus problemas, mas alguém cuja simples existência sustentava uma sensação de proteção. Alguém para quem ainda fosse possível ligar e simplesmente dizer: "Pai".
Pela primeira vez, ele percebia que estava na primeira fila da vida. E isso assusta.
Porque crescemos acreditando que sempre existe alguém que sabe mais do que nós. Alguém que, de alguma forma, mantém as engrenagens do mundo funcionando. Mesmo quando já somos independentes, pagamos nossas contas, criamos nossos filhos e sustentamos uma família, uma parte do nosso mundo interno continua acreditando que existe um porto seguro para onde voltar. É claro que essa sensação nem sempre corresponde à realidade. Muitos pais nunca puderam oferecer esse amparo. Outros já estavam frágeis há muito tempo. Ainda assim, a ideia de que existe alguém acima de nós funciona como uma proteção simbólica que quase nunca percebemos enquanto ela existe. Até o dia em que ela deixa de existir.
Para algumas pessoas, essa descoberta acontece cedo demais. A infância lhes roubou a possibilidade de serem cuidadas e elas precisaram crescer antes da hora. Para outras, ela chega tarde. Foram tão protegidas que entraram na vida adulta esperando que alguém continuasse resolvendo seus conflitos, tomando decisões difíceis ou amortecendo as consequências das suas escolhas.
Talvez seja por isso que eu veja tantas pessoas esperando por mudanças que dependem delas mesmas. Esperam que o parceiro amadureça, que o chefe reconheça, que a família compreenda, que os amigos percebam seu sofrimento sem que precisem dizer uma palavra, que a motivação apareça ou que a coragem simplesmente chegue. Existe uma fantasia muito humana, e profundamente infantil, de que alguém virá colocar ordem naquilo que deixamos desorganizar. Que alguém cuidará da saúde que adiamos, das conversas que evitamos, do relacionamento que negligenciamos ou da bagunça emocional que fomos acumulando ao longo dos anos.
Mas esse alguém não vem. E não vem mais.
Essa provavelmente seja uma das notícias mais duras da vida adulta. Mas também pode ser uma das mais libertadoras. Porque, quando deixamos de esperar por um resgate, de quem quer que seja, recuperamos a autoria da nossa história. Paramos de entregar aos outros a responsabilidade por escolhas que são nossas e começamos, pouco a pouco, a ocupar o lugar que sempre nos pertenceu.
E, acreditem, é justamente nesse momento que os vínculos também mudam.
Quando deixamos de procurar um pai, uma mãe ou um salvador nas pessoas que nos cercam, finalmente conseguimos encontrá-las de verdade. Um parceiro deixa de ser alguém que precisa preencher todos os vazios. Um amigo deixa de carregar a obrigação de nos fazer felizes. Um irmão deixa de compensar as dores do passado. As relações deixam de existir para reparar a nossa história e passam a existir para compartilhá-la.
Isso pode ser chamado de maturidade na sua forma mais plena. Não descobrir que estamos sozinhos, mas compreender que a responsabilidade pela nossa vida é intransferível e, ao mesmo tempo, reconhecer que existem pessoas que podem dividir conosco a caminhada.
Elas não vieram para nos salvar. Vieram para nos acompanhar.
E entendo que essa seja uma das descobertas mais maduras da vida adulta: ninguém está vindo para viver a nossa vida por nós e isso não significa que precisemos carregar tudo sozinhos. Porque existe uma força imensa em assumir a própria história e, ao mesmo tempo, permitir que quem nos ama caminhe ao nosso lado, compartilhando o peso, a alegria e a beleza da travessia.
Te desejo a coragem de sustentar os teus passos e a delicadeza de se deixar acompanhar.
Fernanda Abelin



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