top of page
Buscar

Por que a angústia de se sentir uma farsa só assombra quem realmente tem valor?

  • Foto do escritor: Fernanda Abelin
    Fernanda Abelin
  • 17 de jun.
  • 3 min de leitura

Normalmente, elas vêm para a sessão contando um feito muito bacana. Geralmente são pessoas fantásticas. Profissionais brilhantes, líderes de equipe, parceiros dedicados, mentes cheias de projetos executados com excelência e conquistas que qualquer um de nós aplaudiria de pé. Mas basta o ambiente ficar seguro, basta o silêncio se instalar por alguns segundos, para que o peso venha para fora. E me dizem, quase num sussurro, como se estivessem revelando um crime: “Eu sinto que, a qualquer momento, as pessoas vão descobrir que eu sou uma farsa”.


Se você já sentiu esse frio na barriga ao receber um elogio, se a sua primeira reação ao ganhar uma promoção foi achar que se enganaram ou se você passa os dias trabalhando muito apenas para garantir que ninguém perceba que você supostamente "não sabe o que está fazendo", preciso te dizer uma coisa: você não está sozinho, e você definitivamente não é uma fraude.


O que a gente costuma chamar por aí de "Síndrome do Impostor" não é falta de capacidade, falta de diplomas ou ausência de competência. É, na verdade, um curto-circuito no nosso sistema biológico de proteção. Quando você cresce, assume responsabilidades e ganha destaque no seu meio, o seu cérebro primitivo não lê isso como um troféu ou um motivo para comemorar; ele lê como exposição. Para a nossa biologia ancestral, ficar em evidência significava se tornar um alvo visível para predadores ou correr o risco de ser banido do grupo. O medo inconsciente da rejeição e do julgamento social faz com que o centro de controle do estresse no cérebro acione um freio de mão emocional. O grito da farsa é uma tentativa disfuncional, dolorosa e desajeitada da sua mente de tentar te proteger de uma queda que ela julga inevitável.


O grande problema é que esse curto-circuito não fica trancado numa gaveta. Ele transborda para a nossa vida pessoal e contamina os nossos relacionamentos. A pessoa que se sente uma farsa na carreira, muitas vezes, carrega essa mesma insegurança para dentro de casa, para as amizades e para a vida amorosa. O medo de ser "descoberto" se transforma no medo constante de ser rejeitado se mostrar quem realmente é. Você passa a olhar para as pessoas que te amam e pensa: “Se elas descobrirem as minhas fraquezas, meus dias ruins e minhas falhas, vão perder a admiração por mim”.


A partir daí, começam os jogos de aparências dentro das nossas próprias relações. Ou você se transforma naquele parceiro ou amigo que tenta ser perfeito e inabalável o tempo todo, mesmo que acumulando um enorme cansaço que uma hora vai explodir, ou você se afasta defensivamente. Por medo de demonstrar vulnerabilidade e ser julgado, você ergue barreiras emocionais, não se entrega por inteiro e se isola. Afinal, é mais fácil se esconder atrás de uma armadura do que correr o risco de ser visto de verdade.


Mas existe um paradoxo reconfortante e profundamente clínico aqui: o impostor de verdade nunca, em hipótese alguma, se sente assim. Quem é incompetente de fato costuma caminhar pelo mundo cheio de certezas; a pessoa ignora a própria ignorância e transborda uma autoconfiança inabalável. A angústia de se achar uma farsa é um privilégio exclusivo de quem é consciente. Só sente isso quem estuda, quem revisa o relatório três vezes porque se importa com a entrega, quem calibra a própria fala para não ferir o outro e quem tem a real dimensão do tamanho da responsabilidade que carrega nas mãos, seja entregando um grande projeto ou cuidando de quem ama.


Nós alimentamos esse monstro diariamente porque cometemos um erro crucial de perspectiva: nós olhamos para o nosso mundo de dentro, que é caótico, povoado por dúvidas, inseguranças de infância, cansaço crônico e rascunhos rasgados, e comparamos com o mundo de fora dos outros, que nos chega limpo, editado, ensaiado e perfeito nas redes sociais, nas reuniões de trabalho ou nas conversas de domingo. É uma conta que nunca vai fechar.


A dúvida não é o oposto da sua competência; a dúvida é o próprio motor da sua capacidade. É ela que te impede de estagnar. Amadurecer emocionalmente não significa silenciar essa voz de medo para sempre ou esperar o dia em que você acordará se sentindo um super-herói invulnerável. Amadurecer é aprender a olhar para essa insegurança com gentileza, e dizer internamente: "Obrigado por tentar me proteger, mas eu conheço a minha história e eu sei o caminho". Você não caiu de paraquedas no lugar onde está hoje. Você construiu cada centímetro desse chão com esforço, renúncia e repertório. Pode pisar nele com firmeza. Ele é seu.


Fernanda Abelin

 


 
 
 

Comentários


bottom of page