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Se o seu casamento não cabe no Instagram, parabéns: ele provavelmente é real.

  • Foto do escritor: Fernanda Abelin
    Fernanda Abelin
  • 10 de jun.
  • 4 min de leitura

Se o seu casamento não cabe no Instagram, parabéns: ele provavelmente é real.


Por que os casamentos longos sobrevivem de silêncios cúmplices e divisão da louça, e não de textões de Dia dos Namorados.


Se você abrir o seu Instagram no dia 12 de junho, vai parecer que o mundo inteiro resolveu viver um filme de romance francês. É uma enxurrada de buquês milimetricamente posicionados, jantares sob penumbras estrategicamente calculadas e declarações de amor tão longas que fariam os poetas mais intensos parecerem econômicos nas palavras. O algoritmo opera em capacidade máxima para nos vender uma ideia perigosa: a de que o amor só é real se for performado, editado e aplaudido por uma plateia digital.


Mas deixa eu te fazer uma pergunta, de forma bem honesta, de quem estuda os bastidores das relações há anos e atende casais que tentam se reencontrar todos os dias: o que acontece quando você fecha o aplicativo e olha para o lado?


Para quem está casado há cinco, dez, vinte anos, a realidade que se impõe na sala de estar costuma ser bem diferente do feed. O parceiro provavelmente está vestindo aquela roupa surrada de ficar em casa. O cansaço acumulado da semana está estampado no rosto de ambos. A conversa mais recente, minutos atrás, não foi uma poesia sobre a eternidade; foi uma coordenação logística sobre quem lavaria a louça do jantar, quem pagaria o boleto do condomínio que vence amanhã ou quem vai buscar as crianças na escola.


É exatamente nesse milissegundo, entre o brilho artificial da tela e a crueza da sua realidade, que nasce uma armadilha cruel. Uma vozinha lá no fundo começa a sussurrar: "Olha lá o casamento dos outros, que conexão incrível... Por que o meu virou essa rotina engolida pela exaustão?".


Se você já sentiu esse aperto no peito, deixa eu te dar um abraço de quem entende do assunto e te acalmar: o seu casamento não está falindo. Ele só está sendo… um casamento real na vida adulta.


Existe uma explicação neurobiológica muito bonita e libertadora para isso que estamos  (sim, eu me incluo completamente nisso!) vivendo diariamente. Sabe aquela paixão avassaladora do início do namoro, em que a gente passava noites em claro conversando? Aquilo era um estado cerebral movido a dopamina. A dopamina é o neurotransmissor da busca, da novidade, da urgência, daquela fome pelo idealizado. Ela precisa de palco, de impacto visual, de validação rápida. O problema puro e simples é que o cérebro humano não foi programado para viver em estado de alerta dopaminérgico eterno. Se vivêssemos assim, teríamos um colapso de estresse generalizado em poucos meses.


O casamento de longo prazo, aquele que realmente sobrevive aos dias difíceis e às crises de conexão, é sustentado por uma engenharia química completamente diferente, mais silenciosa e infinitamente mais profunda: os sistemas de oxitocina e vasopressina. Esses são os hormônios do apego seguro. É o que a psicologia clássica chama de porto seguro. Eles não geram aquela taquicardia da novidade ou o frio na barriga do flerte, mas geram algo muito mais valioso na vida adulta: o conforto absoluto da previsibilidade. A certeza de que você é conhecido, mapeado e aceito exatamente como é — ou pelo menos em boa parte do tempo, quando a nossa maturidade permite.


Exigir que o seu casamento de anos entregue a performance estética e a intensidade de um Reels de trinta segundos é uma violência psicológica contra a história que vocês construíram. É o equivalente a querer avaliar a solidez e a segurança de uma fortaleza pela textura da tinta na parede externa.


O amor maduro, aquele que realmente cura os nossos traumas de apego e nos protege da desconexão emocional, acontece exclusivamente nos bastidores. Ele se manifesta na cumplicidade silenciosa. É o olhar de cansaço compartilhado no final do dia que diz, sem emitir um único som, "eu sei que foi duro hoje, mas nós estamos juntos". É o braço que puxa o outro para perto na cama nas primeiras horas da madrugada, não porque há uma cobrança por sexo ou validação de performance, mas apenas porque o calor do corpo familiar acalma o sistema nervoso do outro após um dia caótico de estresse. É o café que já te entregam com a quantidade exata de açúcar, simplesmente porque o outro conhece o seu jeito particular de habitar o mundo.


Neste Dia dos Namorados, eu quero te convidar a fazer um pacto de sanidade com quem divide a vida, as contas e os lençóis com você. Protejam o vínculo de vocês da ditadura da comparação digital. O amor que sustenta a vida adulta não precisa de legenda, não precisa de filtro e, definitivamente, não precisa de plateia para ter valor. Quem gasta energia demais tentando convencer a internet de que é feliz na tela, geralmente está com a mesa da cozinha vazia de presença real.


Celebrem a rotina crua, o pijama confortável, a divisão justa das tarefas domésticas e o silêncio seguro de estarem juntos no mesmo espaço sem precisar provar nada para ninguém. No fim das contas, quando a tempestade da vida aperta e os problemas de verdade batem à porta, ninguém se salva agarrado a um post de Instagram. A gente se salva sabendo exatamente de quem é a mão que vai segurar a nossa no escuro.


Fernanda Abelin

 
 
 

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